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Uma Nova Biblioteca de Alexandria

Ainda escrevo,
É verdade.
 
Mas minha escrita
É café requentado,
É lasanha congelada feita em forno de micro-ondas,
É pão dormido e sonâmbulo.
 
Minhas palavras
São miasmas,
Almas penadas,
Mortos-vivos
Da vida que imaginei
E não tive com você,
Escombros das quedas dos voos
Que planejei para nós e os fiz solitário,
Ao redor dos tetos da sala e da cozinha.
 
Meus parágrafos,
Meus poemas,
São ecos embaçados,
São espelhos inaudíveis :
Do teu cheiro,
Que aspirei
Mas não lambi;
Do teu colo,
Que afofei
Mas não dormi;
Do teu ventre
(minha única chance de renascimento),
Que,
Covarde,
Não fertilizei.
 
Ainda assim,
Ainda escrevo...
 
Imagine
Então
Se eu te comesse...
 
Ah, se eu pudesse te comer...
 
Ah, eu esporraria
Novos Quixotes,
Novas Utopias,
Divinas Comédias,
Paraísos Perdidos,
Admiráveis Mundos Novos,
Casmurros,
EUs,
Estrelas da Vida Inteira.
 
Ah, se eu pudesse deslizar meu pau
Por entre tuas grandes tetas...
 
Eu esporraria
Uma nova Biblioteca de Alexandria.

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