O velho professor, que há tempos ultrapassou os limites da exaustão e do desânimo - que foi trespassado por eles, em verdade -, que há tempos desenvolveu a arte de respirar o vácuo e a eterna derrota, trôpego e coxo, arrasta-se para o fim de mais um ano letivo, de mais um ano de nada; se muito, de indignidade. Em reunião pedagógica, recebe a solicitação de seu superior hierárquico para que proceda em um urgente plano de recuperação : salvar da reprovação o quanto mais puder de almas analfabetas, almas já condenadas, por elas mesmas, a vagarem, depois que saírem da escola, num purgatório, num limbo de subemprego e reprodução de suas misérias, dos mais variados tipos. Podem não acreditar os que estão de fora do chamado "processo educacional", mas muitos optam, sim, pela continuidade de suas misérias, pela comodidade delas. Muito das agressões - sejam físicas ou verbais - sofridas pelo professor hoje em sala de aula vêm disso : do professor, muitas vezes, querer tirar o aluno...