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Mostrando postagens de maio, 2015

Tá Rindo do Quê, Ô, Pagodinho?

Não gosto de citar. Gosto menos ainda, aliás, de citadores, aquelas pessoas que sempre começam suas falas com "segundo fulano, de acordo com beltrano etc" . Geralmente, são os dados à inútil área das humanas, os citadores; filósofos, sociólogos, psicólogos e outros charlatões diplomados. Que se fodam Platão, Nietzsche ou Freud. Se eu tô conversando com uma pessoa, quero saber o que ela pensa e tem a dizer, nem que o meu interesse no que ela pense seja meio que fingido, simulado apenas com a intenção de comê-la, quero saber o que ela pensa, não o que pensou algum grego ou alemão, que aí é até capaz de eu broxar. Que quem é bom, pensa; quem não, diz o que o outro pensou. Não obstante, e até porque eu prefiro ser essa metamorfose aporrinhante, vou citar : "se tens enfadonha tarefa, da qual não podes te furtar ao cumprimento, tampouco mais protelá-la em prevaricação, execute-a com muita música e cerveja" . E, então, fiquei pensando, matutando, puxando pela fraca me...

Bar do Araújo Capitula Frente aos Canalhas de Cristo

Escrevi aqui, há uns três ou quatro dias, da dura luta do comerciante José Araújo para manter seu bar, desgraçadamente localizado entre duas igrejas de evangélicos da porra, aberto e em pleno funcionamento, pois há tempos que Araújo e seus clientes bebuns são fortemente assediados pelos crentes filhos das putas de ambas as igrejas. Hoje, meu primo Leitinho e a Jota me chegam com a informação de que Araújo não aguentou o tranco, que capitulou frente às hostes desgraçadas do vingativo, escroto, sanguinolento, sádico, filho da puta deus judaico-cristão. Disseram-me que a notícia da derrota de Araújo está a correr pelo facebook, o face , para os íntimos.  Como tenho várias faces, mas nenhum face (esse trocadilho foi pra você, Jotabê), só me resta acreditar neles. E entristecer. Enlutar. Quando perdemos a luta, só nos resta o luto. Jota mandou-me uma foto e o Leitinho postou a mesma foto no blog dele, o Bar do Araújo com o nome coberto com tinta; antes e depois. Bastardos sifi...

Porque Hoje é Sexta-Feira

Viva o Luizão!!!

O ano de 1991 foi dos melhores para nós, que éramos alunos de graduação do curso de Química da USP - Ribeirão Preto. Os tradicionais Jogos Interquímicas, realizados desta feita no Instituto de Química da Unesp - Araraquara, foi o mais gordo e pródigo dos que participamos. Pudera. Nossas bebedeiras e putarias tiveram dois involuntários patrocinadores. Um, o professor Cinelli, prefeito da FFCLRP à época, que nos deu uma grana à guisa de ajuda de custo para a viagem e para a participação no Interquímicas, evento universitário da mais alta relevância acadêmica, de âmbito internacional; o outro, o Luizão, pai do meu estimado e corno amigo Fernandão : o Luizão, sem saber, foi o grande mecenas dos Jogos Interquímicas de 1991. Acontece que uma agência bancária, se não me falha a memória, do Unibanco, da qual Luizão era tradicional correntista, fechou suas portas na pequena e pacata cidade de Pitangueiras, e um talão de cheques, zero km, sem nenhuma folha usada, acabou sobrando e ficou dan...

Bar do Araújo, o Último Território de Homens Livres

José Araújo, 47 anos, residente em Palmas (TO), é microempreendedor do ramo dos desafogos e desabafos voláteis e engarrafados, é mercador dos sonhos e das frustrações envelhecidos em tonéis de carvalho, ou seja, Araújo é dono de um buteco, de original, inusitado e insuspeitado nome, o Bar do Araújo. O comerciante de água benta que beata não bebe nem com a qual se benze nem a usa fria para aplacar o calor na bacurinha, dados os recentes acontecimentos, em encarnação não muito distante, cuspiu nos pratos da Santa Ceia, cagou ao pé da cruz de Cristo e ainda limpou o cu com o Santo Sudário. E tudo isso são crimes pequenos, delitos menores, meras contravenções do Código Herege Penal se postos em paralelo com o rigor draconiano do castigo dos Céus que Araújo anda a receber. Araújo, sabe-se lá porquê, incorreu na infinita ira do deus judaico-cristão, o do Velho Testamento, o que mandou pai imolar filho em Sua intenção, o que afogou a Terra em dilúvio, o que tornou em sangue as águas do...

Capô de Fusca (2)

Pequeno Conto Noturno (52)

A vida passeia, faz afronta a desfilar por sob a sacada do covil de Rubens, às vistas de seu periscópio, de seu sonar de morcego. Passa a moça com o uniforme do mercado em que trabalha como operadora de caixa, maquiada com o excesso que hoje é considerado bom gosto, erraria no troco se a máquina não o fizesse por ela, olho na bússola desnorteadora de seu celular, provavelmente a vestir um perfume doce e barato. - Comia - sentencia Rubens. Passam a quarentona/cinquentona e sua filha, melindrosa em seus anos 20; a primeira com cansaços a mais, a segunda, celulite e culotes a menos. - Comia as duas - veredicta Rubens. Passam a gorda de belas feições e de machos modos abraçada feito lagosta à magrinha de delicados e coquetes jeitos; coturno 44 e sapatinho de cristal cindelérico. - Comia a magrinha; o tanque de guerra, eu deixava fazer um boquete - promulga Rubens. Passa a sexagenária/septuagenária, com seu carrinho de feira, com suas compras feitas às dúzias, às pencas, às b...

O Planeta dos Macacos (Ou : o Longo Prelúdio da Minha Canção da Despedida)

O que fazer, velho amigo, Quando nos virmos Entre neandertais maquiados de sapientes? Usando para o mal Para o límbico Não para o racional Tecnologia de Flash Gordon De Buck Rogers De Kirk e Spock De Star Wars? Para se congregarem Em torno de virtuais labaredas fotoelétricas Chamas frias e tristes Azuis, blues Como é o sangue dos executados em câmara de gás, Dos cianóticos? O que fazer Quando chimpanzés estão a bordo E no comando de nossas portuguesas naus? Pular fora do barco, velho amigo! Deixar a nau à deriva, Deixar a macacada naufragar em sua ilusão de inteligência. E acender, velho amigo, Esfregando dois gravetos Atritando pedras de sílex Uma fogueira paleolítica. Para aquecermos o vazio da existência (e para anestesiar a faina) Com o qual nunca soubemos lidar. Para tostar nossas caras Para avermelhar nosso sangue Para temperar nossas flechas E nossas lanças. Quando macacos, velho amigo, Estão no comando (e a ...

Boceta de Pandora

Broxar Ou deixar de erigir e ejacular ideias? Broxar!!! Mil vezes um pau mole (Visão triste de se ver) Que um cérebro inapetente (Mantido vivo por aparelhos Ou pior : pela obrigação Adubado por sondas Por esculápios semianalfabetos). Mil vezes não enovelar pentelho com pentelho Que não mais desfibrar A fibra que até o mês passado  Lá no campo ainda era flor (desculpem-me o uso mau e calhorda de vossa sensibilidade vernacular, Belchior e Fagner), Que não pentear, alinhar Tingir o pensamento E urdi-lo em fila indiana Em formação militar Em tapetes de Bagdá; Com sorte, voadores. A grande desgraça A grande desdita É termos sempre acesso  - Irrestrito - À indagação À bifurcação E nunca - Peremptoriamente nunca - À escolha da resposta A definir nossa predileção por esse ou por aquele mal : Dos males, os males. Toda a coleção de papiros, De insetos empalados em alfinetes Da boceta de Pandora.

Eutanásia

Eutanásia, Clama o Marreta, Outras asas (que não rotas) Outras rotas Outras Índias Outras Ásias Outras pazes (ou ao menos alguma) Eutanásia, Clama o Marreta, Por despalavras, Por despensamentos, Por desaparecer.

Blues Fúnebre - W.H. Auden

O filme "Quatro Casamentos e um Funeral" é um marco da comédia romântica, protagonizado pelo cara de bocó Hugh Grant e pela belíssima Andie MacDowell. É um relato bem-humorado, ao estilo inglês, da vida e  das peripécias de um grupo de amigos ao longo de, óbvio, quatro casamentos e um funeral. No funeral, o belo Blues Fúnebre, lido pelo amante do defunto, que bicha inglesa é outra conversa, é outro nível, mas ainda é bicha. Blues Fúnebre (W.H.Auden) Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço — e os guardas usem finas luvas cor-de-breu. Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana, meu meio-dia, meia-noite, fala e canto; quem julgue o amor eterno, como eu f...

Amigos (2)

Cena do filme St. Elmo's Fire; traduzido por aqui como "O primeiro ano do resto de nossas vidas" "Meus bons amigos, onde estão? Notícias de todos quero saber Cada um fez sua vida de forma diferente Às vezes me pergunto: Malditos ou inocentes?" (Barão Vermelho)

O Cara dos Olhos de Raios-X (parte final)

As duas amigas chegaram de novo até o balcão e estavam olhando pro cara. As duas. O cara nem se tocava disso. Pegaram suas bebidas e continuaram a olhar pro cara, lá da mesa delas.  “Deve ser foda mesmo”, tornei à conversa. “Tenho uma coisa pra te alegrar. Tá vendo aquelas duas ali na mesa à esquerda?, estão olhando pra você, e uma delas é bem gostosa." O cara nem se deu ao trabalho de virar a cara.  “Gostosa? Você é quem está dizendo. Eu só vejo ossos e obturações de amálgama de mercúrio. E supondo que a gostosa é a mais alta, correto?”  “Ééé, essa mesma.”  “Ela tem oito restaurações, cinco na arcada superior e três na inferior. Também tem uma solda de fratura horrível no antebraço direito.”  Calei minha boca com cerveja. Como animar um cara desses? Um cara cujo padrão de beleza se baseava em número de obturações e calos ósseos?  “A mais baixa”, seguiu o cara bonito e melancólico, “parece-me muito mais atraente. Nenhuma obturação, a não ser ...

O Cara dos Olhos de Raios-X (parte 3)

“Cara, eu tava precisando dessa mijada”, o cara ainda sem admitir o vômito.  Curioso. Quase nenhum bêbado admite o vômito. Acho que consideram uma espécie de fraqueza, uma fraqueza dentro de outra fraqueza, que é o vício. Talvez funcione assim, já que é pra ter um vício, que sejamos resistentes, firmes nesse vício. Se bem que um outro conhecido diz sempre que não existe fraqueza nenhuma em ser um bêbado. É preciso ser forte, ter talento pra ser bêbado. Só sei que o cara continuou:  “Então, eu não preciso pôr a mão em ninguém pra saber se esse alguém está armado.”  “Sei...”, eu perguntei.  “Eu tenho olhos de raios-X” , disse o cara e pediu mais uma garrafa de vinho.  Bares daquele naipe abrigam muita gente anômala, atraem a fauna mais diversa. Já bebi com uns tipos bem esdrúxulos lá no Durval.  Como a dona que sempre ia ao banheiro quando sua cerveja chegava à metade da lata e completava. Completava com urina. Urinoterapia, ela me explicou, uma m...

O Cara dos Olhos de Raios-X (parte 2)

Olhei de novo e mais atentamente pro cara de voz triste e belas feições. Sua altura regulava com a minha, conseguia ser mais franzino que eu, o que não é feito dos mais fáceis, gestos delicados, sem serem femininos, mas delicados, semblante sem única cicatriz que pudesse inspirar medo, ou única ruga que pudesse inspirar respeito. E as mãos? Mãos de dedos finos e brancos, quase translúcidos, como se feitos dessas massas de modelar para crianças. Rabos de lagartixa. O cara parecia ter cinco rabos de lagartixa em cada uma das mãos.  Como que lendo meus pensamentos e respondendo à pergunta que eu nunca lhe faria, continuou:  “Eu seria um segurança preventivo, e não um reativo.”, e lá se foi o resto da segunda garrafa de vinho.  “Aposto que não entendeu, né?”  Não tinha entendido mesmo. Nem sei se queria entender. Eu só estava num bar, bebendo. A maioria das coisas vistas naquele bar não eram mesmo para ser entendidas. Mas posso dizer que não tinha a menor vontad...