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Mostrando postagens de junho, 2014

Mimetismos (9)

Bela foto! Quem emula quem? A borboleta camaleoneia o camaleão, ou o camaleão, em posição de casulo, pretende emergir lepidóptero, dragão? Lembrou-me o célebre O Conto do Sábio Chinês , magistralmente adaptado - mimetizado - em canção por Raul Seixas, um dos grandes camaleões da música brasileira. O Conto do Sábio Chinês (Raul Seixas) Era uma vez Um sábio chinês Que um dia sonhou Que era uma borboleta Voando nos campos Pousando nas flores Vivendo assim Um lindo sonho... Até que um dia acordou E pro resto da vida Uma dúvida Lhe acompanhou... Se ele era Um sábio chinês Que sonhou Que era uma borboleta Ou se era uma borboleta Sonhando que era Um sábio chinês...

Pequeno Conto Noturno (42)

É vodka o que rola hoje. Vodka e gelo siberianos com coca-cola ianque. A esta mistura, a este drink, como diriam os mais viadinhos, Rubens batizou de "Guerra Fria", o melhor tratado de paz que dois mundos, depois de décadas de litígio e delicado equilíbrio de poder, puderam estabelecer, a maior herança que puderam legar : álcool de cereais e propaganda de falsa felicidade engarrafada ou enlatada, embotamento e um iluso modo de vida como meta da existência. Pouco mais que isso é necessário para manter o domínio do planeta. Rubens vem com dois Guerras Frias da cozinha : bem fraco o destinado a Isadora, praticamente fogos de artifício, não a quer ainda fora de combate; quase nuclear o seu, um megaton, que Rubens sempre achou mais bonito o brega Kremlin que a clean e impessoal Casa Branca. - Esta deve ser o quê, a nossa terceira ou quarta ... - começa Isadora - A quarta. Nossa quarta vez - Rubens ajudando-a em sua contabilidade. - E isso num tempo de o quê, dois ou... ...

Se Correr, o Bicho Pega... (Ou : Oroboros; Ou : a Síndrome de Kekulé)

- Como vai a vida, meu caro? - Como vai a morte?, seria a pergunta mais oportuna e adequada. Se não a morte clínica, oficial A que enche de burocracia o legista, Ao menos A morte que é a do olhar que só olha A da inércia dos gases nobres A da indiferença dos cistos Dos hibernantes. Se não a morte da foice -Vestida de cetim -, A subexistência dos bonecos de cera. - Deixa de viadagem, que você tá precisando é de tomar umas, vamos lá. Brindam. - E então, meu caro, como vai a morte? - Um arremedo mal cerzido da vida.

Bíblia, o Livro da Família

Aí estão, mãe e filha, provavelmente, em sua prosaica leitura dominical, louvando o nome de Deus, nutrindo e restaurando seus espíritos conturbados com a palavra Dele, embevecidas e extasiadas diante de tanto conhecimento e bons valores. "Lá ela cobiçou seus amantes , cujos órgãos genitais eram como os de jumentos e cuja ejaculação era como a de cavalos."

Maradona, El Dedo de Dios

Estádio Azteca, Copa do Mundo FIFA de 1986 : após o zagueiro inglês Steve Hodge chutar a bola para o alto, Maradona correu na direção do goleiro Peter Shilton, pulou e jogou a bola por cima do adversário, vinte centímetros mais alto que ele. Com a mão, com o punho cerrado. O árbitro tunisiano Ali bin Nasser validou o gol , revoltando todo o time inglês. Ao final do jogo, questionado sobre se tinha feito o gol com a mão, Maradona assim respondeu: “ Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios ”. Foi o que bastou : o gol histórico de Maradona - e por que não dizer a façanha do argentino - recebeu um nome próprio e assim consta até hoje nos anais das Copas do Mundo : La Mano de Dios . E a justa e implacável La Mano de Dios interveio em outras ocasiões em prol de Dieguito : no campeonato italiano de 1984-85, contra o Udinese de Zico, Maradona também já validara um gol dessa forma; na Copa do Mundo de 1990, na Itália, Maradona não marcou um gol, mas impediu, com ...

Células Obedientes

Tive que matar meu desejo Pelo proibido Pelo inalcançável. O pelo convencionado, pelo acessível Perdeu-se também. Como célula saudável Que támbém é desintegrada Pelo bombardeio de cobalto radioativo Despejado sobre as cancerosas. Mortas as duas Compreendemos Tardia e irreversivelmente Que o verdadeiro cancro Eram as células que bem se dividiam Que obedeciam cordeiras Às fascistas leis da mitose.

Cepas Mutantes

A poesia Em mim Ataca em períodos curtos Em surtos. De malária De dengue Em pandemia de peste. A poesia Em mim Musa a saquear-me A deixar-me anêmico De sangue e sêmen Nômade a levantar acampamento Quando minhas palavras descarnadas Não conseguem pantografar Sua vaidosa autoimagem. Quando eu Mero espelho Me confundo Me embaralho em meus pixels E não produzo a imagem que lhe apraz. A poesia Em mim Aconchega-se em minha cama Em minhas cobertas Em meu pau Quando gordo antepasto lhe pareço. Vai-se embora de madrugada Sem recado nem bilhete Quando lhe apresento Minhas famélicas mandíbulas Meu príapo sequioso de suas entranhas De seus esgotos. A poesia Em mim Chega em recidivas Diva cheia de quereres Infecta Rói, corrói Debelo-a E ela se vai. A poesia Em mim Volta Madalena arrependida Puta desvalida Smpre disfarçada Diferente de dantes Chega-me em recaídas Em cepas de vírus mutantes Infecta Rói, corrói Debelo-a E ela se vai E volta E...

A Argentina é Campeã !!!

E vocês ainda vão torcer pra quem mesmo? Pro Neymar?   "Pra beijar a menina e levar a saudade Na camisa toda suja de batom..."

Carta de Bukowski Aos Seus Detratores

Em 1985, após a reclamação de um leitor, a Biblioteca Pública de Nijimegen retirou de suas prateleiras o livro de contos de Bukowski intitulado Fabulário Geral do Delírio Cotidiano (em inglês, Tales of Ordinary Madness ), sob a declaração de a obra ser “sádica, frequentemente fascista e discriminatória contra certos grupos (incluindo homossexuais).” . Perguntado pelo jornalista Hans van der Broek sobre a censura de sua obra, o velho Buk lhe remeteu uma carta a respeito. A carta, ao contrário do esperado, não é um soco de um boxeador peso-pesado, não é aquele direto de direita que arranca do adversário sangue, dentes e a consciência; a carta é um tapa com luva de pelica, um primor de sobriedade, sobriedade que só os verdadeiros bêbados possuem, uma aula de esgrima verbal, com um sublime e indefensável touché no coração dos idiotas hipócritas, dos politicamente corretos. Faço minhas palavra por palavra, vírgula por vírgula de Bukowski e as lanço feito lança a todos idiotas p...

A Insônia é Uma Camponesa de Tetas Grandes

A insônia não é má Não é vilã Não é malsã. A insônia é um alerta Contra a pouca vida desperta Contra a aridez Contra a miragem deserta. A insônia é uma camponesa suíça De faces coradas De tetas grandes A oferecer sua buceta de quatro num monte de feno. Mas preferimos o sono irrefreável O calmante, a tarja preta, o álcool O fim de noite em frente à TV A broxidão. O sono irrefreável é a sentença de prisão perpétua É a pena de morte A injeção letal A bala na nuca A guilhotina no pau. O sono irrefreável é o cansaço e a capitulação da insônia (tantas você fez que ela cansou, porque você, rapaz, abusou da regra três) É a bengala do cego É o desenganar do médico. O sono irrefreável É a eutanásia do ego.

Verde-Amarelo Bissexto

Bandeiras nos carros Nos postes No asfalto  Nas vitrines das lojas Nas crianças : Estrelas sob o maleitoso e lombriguento sol tropical. A baderna, a falsa cordialidade O caos analfabeto Pardo e desdentado A escarrar na Ordem e no Progresso. Bandeiras nas bundas - alguns cus até que bem traçáveis -, Nos peitos - alguns até que suculentos, balouçantes, até que bem mamáveis -, Mas o verde-amarelo quadrienal é que fode tudo, É o patriotismo de quatro em quatro anos, O patriotismo dos que andam de quatro é que me derruba : O verde-amarelo bissexto é que me broxa.

O Verdadeiro Efeito Dominó

Pequeno Conto Noturno (41)

Algumas dezenas de bucetas, Um ou outro mais descuidado cu. Seis ou sete paixões atrozes, Duas paixões algozes, Apenas uma albatroz : Ela. Com Ela A Lua (ainda que tímida) Nunca se esvaziaria A noite (ainda que acordada) Nunca seria em claro A folha (ainda que sem pauta) Nunca ficaria em branco. A tristeza nunca mais teria alegria O repetido seria raro A ressaca jogaria no time reserva, só esquentaria o banco. Com Ela - Rubens tem certeza - Tudo poderia ter dado certo... Por isso, não deu.

Homens São de Ma(o)rte

  E não é que faz sentido?

A Pitty Sempre me Deixa de Boca Aberta

Pitty faz um rock básico, direto, honesto. E isso é tudo o que o rock tem que ser, é tudo ao que ele sempre se pretendeu : básico, direto, honesto. Rock progressivo, sinfônico... Merda, tudo merda. Ou, se não merda, também não rock, pura enganação. Pitty goza de prestígio entre os rockeiros da velha guarda, já ouvi Marcelo Nova e Roberto Frejat - que não são bobos nem nada, que além de rockeiros também são machos das antigas - tecerem grandes elogios à arretada Pitty. Não bastasse, Pitty é gostosa, gostosíssima!!!! Pitty é para ver e ouvir! Ela lança agora seu novo CD, Sete Vidas, o quarto de sua carreira solo, em cujas faixas mantém a mesma linha, a mesma qualidade de sempre. A canção carro-chefe é a que dá o título ao CD e que, como sempre acontece, não é a melhor do disco, é legalzinha, mas longe de ser a melhor. Muito superiores à Sete Vidas são as Pequena Morte , A Massa e Boca Aberta , sobretudo esta última, cuja letra reproduzo a seguir. Essa é a Pitty, sempre  me...

Onde o Brasileiro Gosta de Sentar o Seu Cu?

Trecho da famosa carta deixada pelo imperador Vespasiano (41 dC) a seu filho Tito (79 dC), na qual, mais que um império, lega a Tito dicas valiosíssimas de como governar as massas. 22 de junho de 79 d.C. "Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro."  (clunis significa nádegas, o famoso bundão)   À esquerda, um homem cagando na lixeira da recepção de um posto de saúde público, em Garanhuns (PE); ...

A Ditadura das Bandeiras

Republico o texto "A Ditadura das Bandeiras", escrito em 25 de junho de 2010, por ocasião da Copa do Mundo de 2010. Republico porque perdi a paciência de ficar chovendo no  molhado, republico porque não estou com ânimo para ficar escrevendo mais do mesmo, republico porque nada mudou, porque nada mudará, republico porque a republicarei em 2018, 2022, 2026... A burrice continua, companheiros, ou, melhor, o falso patriotismo, a hipocrisia, o fingimento, a falta de vergonha na cara. "Está tudo embandeirado. As ruas, as portas dos estabelecimentos comerciais, os postos de gasolina, as janelas dos apartamentos, os supermercados, os bares, as escolas; as pessoas estão embandeiradas, as bundas, os cachorros de madame (é sério que vi um poodle com o pelo tingido de verde e amarelo) e os carros. Sobretudo os carros, a mais evidente extensão do pau do dono do veículo, portanto há paus embandeirados por aí, também. Há bandeiras cobrindo os capôs dos carros fe...

Vaselina Pacu

Uma farmácia, em uma pequena cidade encravada em algum rincão esquecido do vasto interior do país. Antiga, a farmácia; tanto que mais fidedigno seria lhe designar por botica. Arandelas com lâmpadas de vapor de sódio à entrada, piso quadriculado de preto-e-branco, balcão de maciça, grossa, pesada e aromática madeira de lei com ornatos entalhados à mão e fileiras de pequenas gavetas a conter as mais variadas ervas, unguentos e elixires, paredes de pé-direito altíssimo, forradas do rés do chão ao forro com coloridas embalagens e cujas prateleiras superiores só podem ser alcançadas através de uma longa escada que corre por trilhos horizontais. Uma farmácia com "ph", um daqueles locais onde o tempo encosta para descansar, onde o tempo pára para dar um tempo, tomar um café, prosear um pouco, ler uns almanaques Biotônico Fontoura velhos, onde o tempo para por passatempo, para matar um pouco de tempo. Um rapaz, visivelmente um forasteiro, adentra a botica. Sua estrangeirice é ev...

Guaraná Jesus, A Salvação Também Na Versão Zero Caloria

O messiânico refrigerante pertence à The Coca-Cola Company e é fabricado e distribuído exclusivamente no estado do Maranhão. Segundo pesquisas da própria companhia detentora da marca, Jesus vende mais que a própria Coca-Cola. Pode ser que Jesus não seja mais famoso que os Beatles, porém, mais que a Coca-Cola, ele o é, o que não é pouca coisa, ainda que seja na capitania hereditária do Sarney. Oposto ao óbvio, a bebida não foi batizada em louvor a Jesus, o Cristo, por um fiel mais grato e aguerrido, tampouco por João Batista. O Jesus do guaraná vem de Jesus Norberto Gomes, farmacêutico e ateu, um autobatismo e uma autoidolatria, portanto. Irônico e espirituoso pra caralho, o criador da fórmula nada secreta do guaraná Jesus. E herético. Uma profanação do sagrado que, em 1920, data da criação do guaraná, não passou, lógico, despercebida pela Igreja Católica : Jesus Norberto Gomes foi excomungado. Que sorte! Será que a Igreja, à época, pediu-lhe participação nos lucros, afinal, Jes...

Lua Quase Cheia

Hoje A Lua está quase cheia Quase plena Quase Luna Quase túrgida Quase prenhe. Feito mulher peituda Que cansada de ser estrela alfa no firmamento E se rendendo aos lamentos Das hérnias de disco de sua coluna-via-láctea Resolve colapsar o universo Resolve fazer cirurgia de redução das mamas.

Instantâneos de um Saudoso e Remoto Passado (6)

Entre as décadas de 1920 e 1960, a cerveja Malzbier, da Brahma, era anunciada como um tônico fortificante, um complemento alimentar para refeições pouco balanceadas e até como paregórico contra anemia e palidez, a cerveja doce para senhoras e crianças . Muitos anúncios recomendavam seu consumo no horário de almoço, como forma de repor a energia gasta na labuta e de adquirir nova disposição para a segunda parte do expediente. Era também indicada às gestantes, para que lhes aumentasse a lactação. Bons tempos... Que o canalha do politicamente correto matou e que, pelo visto hoje, não voltam mais. P.S : os cartazes acima são, respectivamente, dos anos de 1925 e 1942.

Lena, Como Foi Que Aconteceu? Tanto Tempo Já Passou...

"Lena, você ainda se impressiona Com aqueles carros antigos, vermelhos, sem capota, Com discos de Bob Dylan  E madames com cara de idiotas? Lena, onde estão aquelas fotos  Com você posando nua? E que livravam a minha cara Quando você estava na rua..." (Lena, Camisa de Vênus)

Lombriga Sem Asas

Sou uma lombriga-periscópio. Elevo, equilibro meu pescoço desvertebrado, Oscilo feito boneco inflável de posto de combustível, Feito cobra indiana  Que nunca morde a flauta que a escraviza. Ponho a cabeça para fora da merda E tenho um vislumbre ainda maior Da merda que a merda é, Mas não tenho asas  Para safar-me desse poço de piche - eu e todos os fósseis do Jurássico a dançar suas danças de ossos -, Tampouco poderes de metamorfose. Sou o pior - para mim mesmo - Tipo de homem que há, O homem-intermédio. O que tem discernimento o bastante para enxergar a merda Porém, insuficiente talento para se despregar dela, O homem-meia-bomba. Aos outros, Aos mais agraciados, A natureza concedeu olhos imunes à luz E olfato blindado contra o mefítico.

Mijaram na Nossa Senhora

O padre Querino Pedro, da paróquia Santo Afonso, em Cajazeiras (PB), acusa os evangélicos da cidade, comandados pelo pastor Poroca, de vandalismo contra uma imagem de Nossa Senhora. Os evangélicos, segundo Querino, quebraram a imagem, atearam-lhe fogo usando gasolina e, por fim, mijaram na santa. “Mijaram em cima da imagem” , disse o padre . Pelo visto, o que mais doeu no padre nem foi a demolição ou o churrasquinho da santa, sim a mijadinha para fechar com chave de ouro. A mijadinha é que chocou. A mijadinha foi o requinte de crueldade, a total humilhação imposta ao inimigo já caído. Essa situação me lembrou de uma velha piada : "Contam que Paulo Maluf, então governador de São Paulo, passeando por Roma, foi recebido pelo papa João Paulo II em uma audiência particular, um bate-papo informal entre amigos com interesses comuns. Conversam lá sobre coisas cotidianas e triviais, como os desígnios de deus e da fé e contas secretas no Banco do Vaticano, quando uma imperativa nec...