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Há

Há uma outra cidade
Sobre a cidade em que um dia vivi,
Há pessoas pisando em pessoas
Às quais nunca mais revi,
Há um túmulo fazendo companhia
Ao berço em que nasci.
Há gemidos terminais de dor
Onde havia sua terna voz,
Há poças de lama e não pedras douradas
Em seu caminho para Oz.

Há flores sulfurosas
Onde havia o adocicado jasmim,
Há urubus bebendo néctar,
Expulsando os colibris do seu jardim,
Há seus olhos que não mais me enxergam
Onde antes havia espelhos de mim,
Há doenças  venéreas em seu beijo,
Há cáries malcheirosas em tudo o que vejo,
Há desolação e pesadelo
Onde antes havia desejo.

Há inimigos em família
Onde antes havia o almoço de domingo,
Há cães treinados e medo
Na rua calma onde se brincava sem perigo,
Há vírus e drogas onde havia amor
Correndo pelo cordão que leva ao umbigo.
Há tragédias e desgraças prestes a explodirem
Atrás da cara fresca e barbeada de cada manhã,
Há assassinos embutidos
Em cada pai e mãe.

Comentários

  1. Aliás, está na hora da senhora voltar a escrever.

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