Pular para o conteúdo principal

O Que Fez Você Perder Sua Inspiração? - Charles Bukowski

Norman goteja uma imbecilidade autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e dá risadinhas, puxa sua barba doentia e fala de sua namorada Katrinka, Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e LSD. um mau escritor, quase inédito, isso lhe dá forças enquanto ele fica ali e me conta que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de uma erupção vulcânica para uma faísca de isqueiro.

Eu lhe dou algo para beber e ele desce para o assoalho e começa a falar para dentro do meu gravador. acendo um charuto e ouço. “quero ser o escritor Número Um do Nosso Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas dizerem, “ei, veja, lá vai Norman!” quero que as pessoas gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus poemas...” resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta mas de má qualidade e não ouço mais.

uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde a fita termina de rodar. Norman ajusta sua gravata, ergue-se da posição de joelhos e fica sentado. 
“Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará acabado.” eu começo outro charuto. 
“vou almoçar com Ray Bradbury, na terça.” eu não respondo. 
“Jesus!” ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e começa a vomitar. isso prossegue por algum tempo. “eu me sinto melhor”, ele diz voltando para a sala. 
“tome mais um drinque”, eu digo. “eu o levarei de carro para a sua aula de manhã.” 
“ótimo”, ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja. aí ele me olha e pergunta, “onde você tem sido publicado ultimamente?
” eu estendo a palma das mãos e dou de ombros. 
“Jesus, ora essa! o que fez você perder sua inspiração?” 
“bebida. gente. casamento. gente. casamento outra vez. um filho. bebida. gente. empregos. desempregos. bebida e gente.” 
“meu professor gostaria que você conversasse com seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e gosta de você.”
 “diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que eu estou acabado.” 
“você é sensível.” 
“não, sou apenas um lampejo na frigideira.” 
 
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado com sua poesia. eu vou para o quarto e ligo o despertador para as 10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce melhor agora, mas ao subir na cama eu penso, de onde vêm esses desgraçados e o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu estou enlouquecendo. a luz se apaga e então um alarme contra ladrões em algum lugar por perto se intromete em seus roncos. muito pertinente, eu penso, pertinente demais para uma noite muito desperdiçada em dezembro de 1965 ou qualquer outro tempo que for.
 

Comentários

  1. Bukowski é uma leitura fácil, mas ao mesmo tempo, cheia de camadas. Quase ninguém entende. Se o leitor não tiver um pouco de bagagem, na certa vai achar que entendeu, mas não entendeu nada. Ele tinha uma visão pessimista das coisas. Desiludida talvez... Mas conseguiu seu seguidores. Eu acho que o Nelson Rodrigues seguiu o mesmo caminho, mas foi além. O problema é que nós brasileiros morremos de inveja de quando outro brasileiro se torna perfeito no que faz. Nelson Rodrigues, no tipo de literatura que se propôs, era perfeito.
    Mas o bukowski era bom sim. Acho engraçado que todas as pessoas que conheço e que gostam muito do Bukowski são pessoas também amargas e desiludidas, não sei se é coincidência. Sabe essas pessoas que ligam o foda-se e pronto acabou?
    Não sei...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A Marreta do Azarão8 de janeiro de 2025 às 09:59

      Eu me identifico bastante com a visão de mundo de Bukowski e embora eu morra de vontade, não tenho como ligar o foda-se.

      Excluir
  2. LI pouco Bukowski mas o pouco que ali até aqui, gostei bastante. Escreve muito bem e seu pessimismo e bronca com tudo é transparente. Não me identifico com ele. Eu tenho a irritante pretensão de ser otimista mesmo sabendo que a vida não está em nosso controle.

    ResponderExcluir
  3. Não conheço nada do Hank a não ser o que já li aqui. E se ele tem uma visão desencantada do mundo, estou com ele e não abro.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Cerveja-Feira (20)

A seguir, farei uma relação do número de visualizações diretas que as postagens de cada cerveja-feira anterior a esta, da 1 à 19, tiveram. As visualizações diretas correspondem àquelas em que o sujeito viu escrito "cerveja-feira" em algum lugar, em alguma página de busca e clicou em cima para conferir;  geralmente são pessoas que não são leitoras frequentes do blog, que acabam caindo por aqui de paraquedas.  Explico isto porque os números de leituras de cada postagem a seguir colocados podem estar subfaturados, ou, como se diz em tempos de coronavírus, subnotificados, não estando contabilizadas neles as visualizações indiretas, geralmente feitas por leitores habituais que acessam diretamente o link do nome do blog e não de cada postagem individualmente, e, portanto, impossíveis de serem identificadas. Mas me aterei a eles como único dado confiável que tenho. A eles : Cerveja-feira (1): 55 visualizações; cerveja-feira (2) : 35 visualizações; cerveja-feira(3) : 32 visuali...

Da Inteligência E De Seus Usos (Ou O Paradigma de Roger Moreira)

O indivíduo que possua um QI de 140, 160, ou 180 pontos, tem que, obrigatoriamente, realizar grandes feitos com ele? Tem que, necessariamente, colocar suas habilidades a serviço do resto da humanidade (leia-se, a serviço dos burros) ou dedicá-las às causas consideradas nobres? Não. Óbvio que não. Porra nenhuma que tem. As habilidades são dele, bem como a decisão do uso que dará a elas. E quem não as tem que se foda. O inteligente não tem obrigação alguma de pôr suas pestanas a queimar em prol do bem comum, em prol da melhoria da vida humana. Ele até pode, se quiser. E alguns superdotados até o fazem, e o fizeram. O inteligente, porém, pode muito bem "trabalhar" só para si, pode muito bem usar suas potencialidades para obter, sem muito esforço, uma vida cômoda e aprazível. Ele não tem que curar o câncer, colocar o homem em marte, decifrar buracos negros ou a origem do universo. Ele pode usar a sua inteligência para fazer a merda que quiser.  Ele não recebeu a sua inteligên...