Pular para o conteúdo principal

Amanhã, Eu Tento de Novo

Todas as noites,
No capão ermo dos meus sonhos,
Em frente à tapera eremita dos meus desejos,
Acendo a minha fogueira
Com galhos caídos de angico,
Peroba,
Jatobá.
 
Sento-me ao chão,
De pernas cruzadas,
Tomo da minha cerveja
E fico a olhar a madrugada
Pelo filtro da cortina de convecção
Que sai de suas labaredas.
 
Espero pelo chegar de uma jaguatirica
(Escuto, amiúde, os miados dela nas brenhas),
Tenho sempre um peixe ao meu lado,
Uma tilápia pescada na lagoa cheia de taboas,
Para jogar-lhe às suas quatro patas almofadadas,
Em oferenda.
 
Espero pela visita do Curupira
(Encontro, amiúde, suas pegadas dúbias no meu quintal),
Tenho sempre um bom fumo de rolo
E uma cachacinha de amburana
Para lhe fazer sala e levarmos um dedo de prosa.
 
Espero pela vinda dos vaga-lumes 
(Vislumbro, amiúde, seus relâmpagos sem trovão junto à nebulosa de Órion),
Tenho sempre um quarto de galão de querosene
Para ofertar-lhes como combustível 
E um lampião,
Que um dia já foi uma brasa,
À espera de que com ele acasalem.

Espero pela aparição da coruja
(Escuto, amiúde, o rufar de suas asas a espanar a poeira de minha biblioteca),
Tenho sempre o ombro
Para lhe oferecer em poleiro,
Para que ela me inocule
Com a peçonha da sabedoria de Palas-Atena
Que carrega em suas garras.

Espero...
Mas só quem chega é o dia.

Espero...
Mas o breu dos céus
Logo é lavado,
Logo é varrido,
Pelo jato, pela torrente de luz da manhã
Saída da mangueira de água
Da velha que acorda às 4 da manhã
Para lavar a calçada.

Acordo, também.
Respiro fundo e digo :
Amanhã, tento outra vez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cerveja-Feira (20)

A seguir, farei uma relação do número de visualizações diretas que as postagens de cada cerveja-feira anterior a esta, da 1 à 19, tiveram. As visualizações diretas correspondem àquelas em que o sujeito viu escrito "cerveja-feira" em algum lugar, em alguma página de busca e clicou em cima para conferir;  geralmente são pessoas que não são leitoras frequentes do blog, que acabam caindo por aqui de paraquedas.  Explico isto porque os números de leituras de cada postagem a seguir colocados podem estar subfaturados, ou, como se diz em tempos de coronavírus, subnotificados, não estando contabilizadas neles as visualizações indiretas, geralmente feitas por leitores habituais que acessam diretamente o link do nome do blog e não de cada postagem individualmente, e, portanto, impossíveis de serem identificadas. Mas me aterei a eles como único dado confiável que tenho. A eles : Cerveja-feira (1): 55 visualizações; cerveja-feira (2) : 35 visualizações; cerveja-feira(3) : 32 visuali...

Da Inteligência E De Seus Usos (Ou O Paradigma de Roger Moreira)

O indivíduo que possua um QI de 140, 160, ou 180 pontos, tem que, obrigatoriamente, realizar grandes feitos com ele? Tem que, necessariamente, colocar suas habilidades a serviço do resto da humanidade (leia-se, a serviço dos burros) ou dedicá-las às causas consideradas nobres? Não. Óbvio que não. Porra nenhuma que tem. As habilidades são dele, bem como a decisão do uso que dará a elas. E quem não as tem que se foda. O inteligente não tem obrigação alguma de pôr suas pestanas a queimar em prol do bem comum, em prol da melhoria da vida humana. Ele até pode, se quiser. E alguns superdotados até o fazem, e o fizeram. O inteligente, porém, pode muito bem "trabalhar" só para si, pode muito bem usar suas potencialidades para obter, sem muito esforço, uma vida cômoda e aprazível. Ele não tem que curar o câncer, colocar o homem em marte, decifrar buracos negros ou a origem do universo. Ele pode usar a sua inteligência para fazer a merda que quiser.  Ele não recebeu a sua inteligên...