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Que Fóssil, Hein, Meu Chapa, Que Fóssil...

Fósseis não são apenas ossos de dinossauros - como bem pode achar a plebe iletrada. Aliás, fósseis nem mesmo são ossos - o que pode causar estranheza e estarrecer a choldra ignóbil.
A rigor, fósseis são restos, vestígios ou impressões petrificados ou mineralizados de espécies que habitaram o planeta em outras eras e cujas características básicas de forma foram preservadas ao longo do tempo.
Esqueletos ou partes deles, carapaças e exoesqueletos de invertebrados, galhos, folhas, troncos, ovos, pegadas e até mesmo fezes (os famosos coprólitos) podem se transformar em fósseis. Uma vez tornados em fósseis, deixam de ser o que um dia foram.
A exemplo, um fóssil de um osso não é mais um osso. 
Sob um conjunto muito especial e raro de condições, como o tipo de solo - textura, densidade, pH, permeabilidade, composição mineral rica em sílica, cálcio etc -, o clima, a temperatura, a umidade, a população bacteriana do local etc, aquela parte do animal, que um dia foi um osso, agora soterrada por solo sedimentar, passa a sofrer um lento processo de substituição de seus minerais pelos minerais do solo. Depois de muito e muito tempo, quando a substituição se completa, o que era osso foi tornado em uma rocha, uma pedra. Uma pedra que mantém a forma básico do osso. O osso serviu de molde para o fóssil.
Os fósseis são arquivos mortos da Natureza. São os registros das patentes de antigas espécies com firma reconhecida no Cartório da Evolução.
Os fósseis mostram que o planeta já foi povoado por espécies que hoje não existem mais, e também que as atuais espécies não lhes foram contemporâneas, uma vez que, por exemplo, um fóssil de uma galinha nunca foi encontrado no mesmo túmulo geológico de uma trilobita. Também, se obtidos em uma boa sequência de tempo, os fósseis revelam as gradativas mudanças sofridas pelas espécies ancestrais até culminarem no que são hoje.
Em suma : os fósseis são uma prova cabal de que as espécias não são fixas, que não foram criadas todas ao mesmo tempo por obra divina e assim permanecem desde então. Os fósseis mostram que a vida sofre mudanças, ou seja, que há a Evolução. A Evolução é um fato. Agora, se as teorias que a explicam são corretas ou não, já é uma outra história. A mudança é fato. Quanto a como a mudança acontece, há divergências. Mas isso é uma outra questão, para uma outra postagem, que provavelmente nunca acontecerá.
Por tudo o que foi dito (e, finalmente, chegando ao motivo da postagem), uma vez que os fósseis levam milhares de anos para serem formados, só serão achados restos e vestígios mineralizados das espécies atuais daqui a uns tantos éons, daqui a umas tantas eternidades, certo? 
Porra nenhuma. Erradíssimo.
Hoje, na volta do mercado, ao passar por uma praça recém-reformada aqui do bairro, verifiquei in loco a formação de fósseis atuais e modernos, fósseis expressos, feitos a toque de caixa, fast fósseis.
Com a reforma, o calçamento original da praça, todo em elegantes pedras portuguesas, foi substituído pelo plebeu e grosseiro cimento. Pelo que vi, deduzi e fotografei, enquanto o cimento secava, folhas de diversas espécies de árvores foram caindo e sendo tragadas pela massa fresca e movediça. Uma vez seco, o cimento, as impressões das folhas, suas "pegadas", ficaram.
Um verdadeiro sítio arqueológico moderno. Um arquivo para que futuras gerações saibam do que havia por aqui então. Sejam futuras gerações de humanos, sejam futuras gerações de futuras espécies de fato inteligentes, que saibam usar a inteligência de forma inteligente.
Bonito pra cacete. Eu, pelo menos, achei bonito.


O que me fez lembrar de uma trágica situação ocorrida comigo, mas que, se ocorrida com outro, poderia até ser contada como uma piada, uma anedota de salão.
Devia ser 2014, 2015, mais ou menos. Eu estava a dar o visto nas atividades dos alunos, justamente, do assunto em questão, fósseis e outras evidências da evolução. No caderno de atividades recebido pelo aluno, havia algumas questões a respeito do tema, entre elas : O que são fósseis? Qual a sua importância para a ciência?
Quando dou vistos, geralmente, mal olho para o conteúdo, muitas vezes ininteligível, das respostas. Só vejo se o sujeito fez alguma coisa e dou o visto, o suficiente para ele passar de ano, como querem os dois, ele e o Estado. Mas, de vez em quando, eu baixo a guarda e busco entender a resposta do aluno, de vez em quando, questiono-o sobre o que ele respondeu.
À primeira indagação, o que são fósseis?, o tal aluno até que se saíra a contento. Transcreveu pro caderno de atividades a definição que eu tinha posto no quadro; embora, é bem verdade, tenha escrito "pedrificado", mas até aí, tudo certo. O que me chamou a atenção foi a resposta dele à segunda indagação, qual a sua importância para a ciência?, à qual, curto e grosso, ele respondera : nenhuma.
Como nenhuma?, perguntei eu. Nenhuma, professor; ele ratificou sua resposta. Disse-lhe que a importância dos fósseis era permitir a constatação de que as espécies estão em constante mudança etc etc.
- Ah - disse ele, como que iluminado por uma epifania -, é da importância dos fósseis que ele tá perguntando. 
Aí é que eu vi o motivo da resposta dele. Ele achou que a pergunta fosse qual é a SUA importância, a importância dele, aluno, para a ciência.
Nesse caso, disse-lhe eu, a sua resposta está correta.
Que fóssil, hein, meu chapa, que fóssil...

Comentários

  1. Excelente texto, excelente final, lindíssimas imagens. Ainda bem que ele não veio com papo de criacionismo. E o trocadilho ficou totalmente demais.

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