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Divórcio Ortográfico

Será mesmo
A necessidade
A mãe (solteira) da invenção?

Há não muito tempo,
Não tinha a menor necessidade de ti :
Sequer te supunhas.

Até que
Te inventaste para mim,
Entraste roda
E roliça
Em meu mundo quadrado,
Entraste alfarrábio e biblioteca
Em minha pinacoteca rupestre.

Chegada a data da tua obsolescência programada
(por ti e a mim não comunicada)
Negaste-me a tua atualização,
O teu upgrade.

Eu, 
Outrora bactéria sóbria e anaeróbia,
Como sobreviverei à falta e à abstinência
Do oxigênio a que me apresentaste?
Que me fizeste tomar aos litros
Inalar carreiras dele pelas ventas
E injetá-lo nas veias?
Como voltar a fermentar feliz pelo lodo primordial?

Eu,
Outrora gutural e ágrafo,
Como poderei 
Continuar a escrever para te mentir e agradar?
Como poderei clamar pelo teu nome em meus gozos,
Gritar por ti em meus pesadelos?
Como enviar-te correios elegantes por pombos-correio poliglotas?
Se te foragiste,
Se desertaste,
Oh, letra jocosa,
Em arbitrária reforma ortográfica,
De meu alfabeto?
Se,
Com teu abandono,
Tornaste mancos, disléxicos e brochas
Meus dicionários e minha gramática?

Como voltar a viver
Num mundo puramente de sons,
Agora que os sei
Meros reflexos distorcidos e embaçados da tua palavra?

Comentários

  1. Usarei e abusarei do direito de não responder que me concedeu.
    E todas as realidades não são alternativas, ainda que muitas vezes não nos sejam uma alternativa?

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