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A Ventura de Sísifo (Ou : uma Nênia ao Magistério)

Sísifo é que era feliz.

É bem verdade
Que a pedra
(sua dura rotina, sua inimiga e seu ganha-pão),
Sólida e satisfeita em sua ignorância,
Pétrea e confortável em sua burrice,
Estava lá de volta,
No dia seguinte,
No mesmo lugar,
Ao pé da montanha.
Como se ninguém houvesse,
Dia anterior,
Levado-a, a sofridos suores, ao topo.

E no dia seguinte,
E no dia seguinte,
E no dia seguinte...

Mas a pedra,
Ao menos,
Não se opunha a que a elevassem momentaneamente às alturas,
Não oferecia resistência ou combate
Não reclamava do empurrão:
Não complicava a vida de Sísifo.
E se lá de cima rolava,
E se de novo se punha ao rés do chão
Não era por impertinência,
Não era por provocação,
Não era por insolência.
Era tão-somente pela inércia do seu ser,
Pelo inescapável de sua natureza,
A de quem não nasceu mesmo
Para mirar largos horizontes.

(preferiria, muito mais, eu, uma sala cheia de bem-educadas pedras rolantes)

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