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Bukowski, Sem Combustível

você vê
as fábricas cansadas?
os navios errantes e putas sorridentes?
França e a terra quente?
as altas horas?


você vê
agora que você vê que
tudo que nos disseram
estava errado?


o elefante capturado
daquele jeito
e enjaulado
daquele jeito?


o modo como nos enganaram
e nos enjaularam também?


quão docemente triste parece isso
quão triste e doce
ao passar por pessoas solitárias na
rua
os crânios atrás da
pele
as artérias bravamente
bombeando líquido
enquanto elas se apressam para fazer
todas as coisas tolas que
têm que fazer.


mas o que você não vê
é o relógio que diz
meia-noite
e esse coração em mim
mesmo
sem combustível.


o que você vê é que
o que mais importa
não importa mais
tanto.


o que você vê é
o cachorro na estrada
que não se mexe.


o que você vê são
homens assustados em tanques e uniformes
nada diferente dos operários
que já conheci.


o que você vê é
Toulouse-Lautrec mijando
vermelho
e o pobre Van Gogh
pingando amarelo.

o que você vê são
sapos e dentes-de-leão
pardais mortos na rua
amantes na chuva
o carrasco balançando ao vento.


agora você vê.

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