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Amansou o Lobo? Quero Ver Agora Convencer o Poodle a Lhe Comer

Cerca de dez, cinco minutos antes do encerramento do período letivo, geralmente autorizo que os alunos guardem seus materiais (os poucos que ainda os carregam e os menos ainda que efetivamente os usam), arrumem suas carteiras e ficamos à espera do libertador sinal. Alguns permanecem em seus lugares, outros vão se aglutinando junto à porta, onde também fico para evitar fugas e deserções antes da autorização sonora da sirene, cãezinhos de Pavlov, todos nós.
Então, ontem, um aluno, de seus dezesseis, dezessete anos, chegou a mim e me mostrou o que acontecera com sua perna : três pontos de pus, dois dos quais já bem evidenciados e definidos em furúnculos. Notei também que os pelos da perna dele estavam todos curtos, de mesmo tamanho, como uma barba de dois ou três dias. Esse moleque raspa as pernas, pensei eu, mas nada disse a respeito. E nem foi preciso. Quando lhe perguntei o que acontecera, ele, sem nenhum tipo de pudor, disse que era alergia à gilete, que depilara a perna e os pontos de inflamação surgiram.
Pensei em lhe dizer : - rapaz, que viadagem é essa, vira homem etc etc. Os mesmos conselhos que sempre dei, sem sucesso, ao meu saudoso amigo Margá. Mas o que acabei por falar foi : - e para que isso, que bobeira é essa, raspar a perna? Que em tempos do triste e perigoso politicamente correto tudo ofende, tudo constrange.
E o menino, gente boa de tudo, seguiu em sua explicação : - é que é feio, né, professor? Feio? Pelo na perna de homem é considerado feio hoje em dia? E sei que esse menino não é um caso isolado, vários adolescentes fazem isso, alguns depilam também peito e sovacos.
Na minha época de jovem varão, quando estávamos a adentrar a puberdade, havia até um competição entre nós para ver quem primeiro desenvolveria pelos nas pernas, nos sovacos e, principalmente, no saco. Era sinal de que tudo estava certo conosco, de que nossos hormônios estavam em dia, cumprindo com suas químicas funções, era sinal de masculinidade e virilidade. Era não, continua a ser. Biologicamente, continua a ser. Mas parece que, socialmente, não é considerado como tal. Socialmente, é feio; socialmente, hoje, ser homem, parecer com homem, é feio. Não é de espantar, portanto, a gazelice galopante.
Perguntei, então, àquele jovem recém-masculinizado e já a se impor uma feminilização, uma androginia : - de onde você tirou isso, a ideia de raspar a perna, de que pelos são feios etc? Respondeu-me : - as meninas, professor, as namoradas pedem...
Na hora, eu estava sinceramente disposto a dizer um monte de merdas e de verdades para aquele macho em eclosão e já a ser transformado em uma espécie de boneco, de manequim de loja, pelas namoradas. Soou, no entanto, o sinal para a saída e ele foi salvo pelo gongo. Ou eu.
As namoradas pedem... Não fora a primeira vez que eu escutara algo do gênero. Conheci um jovem professor cuja namorada lhe "corrigia" as sobrancelhas e lhe fazia limpeza de pele. Sobrancelha de homem tem que ser basta e densa, uma monocelha, de preferência, daquelas que se encontram e se enroscam ao cimo do nariz, feito às do Monteiro Lobato. 
Mas não só desavisados e incautos jovens que cedem aos caprichos emasculantes de suas amadas; às vezes, até machos das antigas são pegos em tal esparrela. Tenho um amigo, macho de respeito, ponta firme, mesma idade que eu, que me confidenciou, certa vez e há muito tempo, que raspara o saco e a virilha à pedido da esposa. - A digníssima tá afim de chupar pau e lamber bolas de macho ou do Ken, o noivo da Barbie?, perguntei-lhe. Ele riu e desconversou. E continua casado com a mesma esposa. Se continua a raspar as bolas, eu não sei, só sei que nunca mais tocou no assunto comigo.
Mulher é foda! Quer tornar o homem em uma espécie de mulher com pinto. Quer impor ao seu nobre consorte os mesmos gostos que os seus, o mesmo comportamento, a mesma estética corporal e de vestiário, o mesmo cheiro, a mesma pele, a mesma folclórica sensibilidade da qual todas se dizem donas.
As mulheres querem um homem refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível. Acontece que o cara ou nascido ou transformado pela mulher em um sujeito refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível, também quer e busca exatamente a mesma coisa : um outro cara refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível.
A mulher quer tirar do macho o que é do macho, o que lhe constrói como tal, o que é a essência dele, o seu mojo. Aí, quando ela consegue, quando o sujeito embicha e enviada de vez, ela sai a reclamar que tá faltando homem na praça.
A mulher quer domesticar o lobo. Quer lhe tirar o sangue das presas e dos olhos. Quer lhe tirar o cheiro da noite, da Lua, da caçada e da carniça em seus pelos. Quer, haja vista ao relatado, tirar-lhe, inclusive, os pelos. Quer tornar o lobo em um poodle em sua coleira, quer passear com ele no shopping, mostrar para as amigas o quão ela bem o adestrou. Quer lhe dar banhozinho, tosar-lhe, emperequetá-lo, botá-lo em roupinha de grife, passar-lhe xampuzinho e condicionador para seu tipo de cabelo, ensiná-lo a não mijar fora da privada e a sempre abaixar a tampa, quer tirar o cara do buteco e levá-lo ao bistrot.
Amansaram o lobo, minhas caras? Quero ver agora convencerem o poodle a lhes comer!

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