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Pescadores de Lembranças

Reencontramo-nos,
Velhos amigos.
Hiato de meses para alguns,
Cânion de décadas para outros.
Reencontramo-nos,
Mais velhos,
Mas ainda reconhecíveis
Pouco erodidos pelo tempo
Ou tão erodidos
A ponto de nossas memórias 
Não lembrarem de quando éramos jovens.
Reencontramo-nos,
Brindamos ao presente
Que nossas vidas, sim, são boas,
Mas celebramos, de fato, o passado.
Munimo-nos da garrafa de um bom rum
E de varas e de linhas e de anzóis
E montamos acampamento e vigília
Às bocas de nossos lagos de reminiscências;
O lago de um, um pouco mais fundo que o do outro,
O do outro, pouca coisa mais largo que o do um,
Mas todos escuros e brenhosos,
Superfícies de águas estagnadas,
De algas, limo e lodo. 
Emborcamos a primeira dose
Sem gelo.
Pusemo-nos à pescaria de nossas lembranças.
Puxadas para fora de suas hibernações,
De suas locas,
A engodo, a anzol.
Algumas lembranças
- bem poucas, é verdade -
Romperam grandes, pesadas e furiosas
A flor d´água,
Aduana entre o ontem e o hoje.
Viçosas, substanciosas e de escamas iridescentes.
Estas, transformamos em assados,
Ensopados,
Moquecas,
Na brasa,
Sashimi.
Lambemos os beiços,
Canibais de nós mesmos.
Outras lembranças
- a maioria das fisgadas - 
Vieram peixes pequenos.
Devolvemo-as aos nossos lagos
Para, quiçá, engordarem com a ceva de saudades futuras.
Outras, ainda,
Apenas levaram nossas iscas,
Preferiram permanecer em suas profundezas,
Histórias mal lembradas, não fisgadas,
As mais sábias, estas.
E em nossa próxima pescaria,
Meus amigos?
Que lembranças fisgaremos,
Uma vez que a nossa mais recente
Será a desta pescaria de lembranças?
Fisgaremos a lembrança de nós
À beira do lago fisgando lembranças?
E na outra?
A lembrança da lembrança de nós
À beira do lago fisgando lembranças?
Até ele ficar despovoado,
Viveiro profícuo
Apenas de alevinos de inércia.
(Fotografias tiradas de outras fotografias tiradas de fotografias de fotografias de outras fotografias. Salão de espelhos que refletem um ao outro. Fractais derretendo pelos ralos, pelos escoadouros).

Comentários

  1. "Lambemos os beiços,
    Canibais de nós mesmos.
    Outras lembranças
    - a maioria das fisgadas -
    Vieram peixes pequenos.
    Devolvemo-as aos nossos lagos"

    Perfeito
    "J"

    ResponderExcluir
  2. A Marreta do Azarão7 de março de 2015 às 09:39

    Obrigado, "J"
    Identifiquem-se, poxa!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahahaha
      Vc conhece o valor dos pseudônimos.
      "J"

      Excluir
    2. A Marreta do Azarão7 de março de 2015 às 16:24

      Por acaso, você é um "J" que, na verdade, é um "M"?

      Excluir

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