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Bukowski - Meus Companheiros

Quem disse que o velho sujo Bukowski é um cara antissocial, insensível, grosseirão, que não nutre a menor solidariedade ou afeição por seus pares? Pois o velho safado Buk também tem seus momentos de vulnerabilidade, de sentimentalismos.
Prova é esse poema abaixo, em cujos singelos versos ele expressa toda sua afabilidade e simpatia por seus colegas escritores.

meus camaradas 
aquele ali ensina
aquele outro vive com a mãe.
e aquele outro é sustentado por um pai alcoólatra e rubicundo
dono de um cérebro de mutuca.
aquele ali toma boletas e vem sendo sustentado pela
mesma mulher há 14 anos.
aquele outro escreve um romance a cada dez dias
mas ao menos paga o próprio aluguel.
aquele ali vai de lugar em lugar
dormindo em sofás, bebendo e proferindo seus
discursos.
aquele ali imprime seus próprios livros numa máquina
copiadora.
aquele outro vive num vestiário abandonado
num hotel em Hollywood.
aquele parece saber como arranjar tostão depois de tostão,
sua vida é um preencher de formulários.
aquele ali simplesmente é rico e vive nos melhores
lugares enquanto bate às melhores portas.
aquele lá tomou café com William Carlos
Williams.
e aquele ali ensina.
e aquele lá ensina.
e aquele ali piblica livros de auto-ajuda sobre como fazer
as coisas e usa uma voz dominadora e cruel.

eles estão em todo lugar.
todos são escritores.
e quase todo escritor é poeta.
poetas poetas poetas poetas poetas poetas
poetas poetas poetas poetas poetas poetas

a próxima vez que o telefone tocar
será um poeta.
a próxima pessoa a bater à porta
será um poeta.
aquele ali ensina
e aquele outro vive com a mãe
e aquele lá está escrevendo a história de
Ezra Pound.
oh, irmãos, somos as mais doentes e
as piores criaturas da raça.

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