Pular para o conteúdo principal

Ligeira Crônica Solar (2)

Ele, em ida ao trabalho, a via quase todos os dias : camiseta sem mangas, bermuda de lycra ou qualquer outro tecido aderente, tênis para corrida, como quem poderia estar de volta ou a caminho de uma academia de ginástica; porém, era a passear com seus dois cachorros que sempre estava, atividade que lhe conferia igual ganho em saúde e muito maior dignidade.
Via-a sob a quase-luz da manhã ainda conservada em madrugada pelo horário de verão. Olhava-a sempre da calçada oposta à dela, sempre uns tantos passos atrás. Nunca teve intenção de se aproximar, muito menos de encetar conversa ou abordagem, ela era uma imagem animada que lhe agradava, e só. Não era especialmente bonita, era especialmente singular, quase que literalmente única àquela hora da manhã.
Um dia, ela estacou o passo e fez estacar os dos seus cachorros, segurando-os pelas coleiras. Levou a mão àlgum bolso insuspeitado da bermuda e sacou um telefone celular, um hediondo de um celular. Assim que o aparelho foi acoplado ao ouvido, uma luz azulada iluminou a face dela, luz de necrotério.
Então, ela respondeu ao seu interlocutor com voz horrivelmente alta. E riu desbragadamente. Histericamente, como são as risadas forçadas que as pessoas dirigem às máquinas, às outras pessoas por detrás de outras máquinas, risadas que são mais tiques nervosos do que a mansa manifestação do reconhecimento de um fato engraçado, risada saída de um sintetizador de som, risada que a máquina daria se lhe fossem dadas cordas vocais.
Acabou-se a singularidade. Ela se tornou apenas em alguém levando os cachorros para cagar. Acabou-se a dolce luce. Desgraçadamente, raiou a realidade.

Comentários

  1. Celular fode qualquer clima de romance.
    E nessas horas, só uma boa marreta.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Cerveja-Feira (20)

A seguir, farei uma relação do número de visualizações diretas que as postagens de cada cerveja-feira anterior a esta, da 1 à 19, tiveram. As visualizações diretas correspondem àquelas em que o sujeito viu escrito "cerveja-feira" em algum lugar, em alguma página de busca e clicou em cima para conferir;  geralmente são pessoas que não são leitoras frequentes do blog, que acabam caindo por aqui de paraquedas.  Explico isto porque os números de leituras de cada postagem a seguir colocados podem estar subfaturados, ou, como se diz em tempos de coronavírus, subnotificados, não estando contabilizadas neles as visualizações indiretas, geralmente feitas por leitores habituais que acessam diretamente o link do nome do blog e não de cada postagem individualmente, e, portanto, impossíveis de serem identificadas. Mas me aterei a eles como único dado confiável que tenho. A eles : Cerveja-feira (1): 55 visualizações; cerveja-feira (2) : 35 visualizações; cerveja-feira(3) : 32 visuali...

Da Inteligência E De Seus Usos (Ou O Paradigma de Roger Moreira)

O indivíduo que possua um QI de 140, 160, ou 180 pontos, tem que, obrigatoriamente, realizar grandes feitos com ele? Tem que, necessariamente, colocar suas habilidades a serviço do resto da humanidade (leia-se, a serviço dos burros) ou dedicá-las às causas consideradas nobres? Não. Óbvio que não. Porra nenhuma que tem. As habilidades são dele, bem como a decisão do uso que dará a elas. E quem não as tem que se foda. O inteligente não tem obrigação alguma de pôr suas pestanas a queimar em prol do bem comum, em prol da melhoria da vida humana. Ele até pode, se quiser. E alguns superdotados até o fazem, e o fizeram. O inteligente, porém, pode muito bem "trabalhar" só para si, pode muito bem usar suas potencialidades para obter, sem muito esforço, uma vida cômoda e aprazível. Ele não tem que curar o câncer, colocar o homem em marte, decifrar buracos negros ou a origem do universo. Ele pode usar a sua inteligência para fazer a merda que quiser.  Ele não recebeu a sua inteligên...