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O Mal Que Faz Ler "Os Pensadores" (Ou : A Armadilha Em Que Caíram Guilherme Arantes e Lobão)

Tenho uma caixa plástica retangular em que disponho meus CDs de músicas que vou baixando e gravando da internet. Contabilizo quase 150 CDs e, gravados no formato mp3 que são, cada um deles abriga cerca de 10 álbuns dos mais diversos artistas. Tudo MPB, sou xenófobo xiita no que diz respeito à música; exceções feitas ao Sinatra e ao The Doors. Mantenho uma lista detalhada de minha coleção na qual relaciono o número do CD com o conteúdo ali gravado.
Às vezes, no entanto, dou uma de periquito de realejo, corro os dedos pelos CDs e pinço um, ao acaso. Também ao acaso, aperto o botão "aleatório" do toca-CD e deixo tocar o que sair.
Ontem, dei de cara com o belíssimo álbum Guilherme Arantes (1976), com a clássica Meu Mundo e Nada Mais. Guilherme Arantes produziu grandes discos entre os meados das décadas de 70 e 80. Além do já citado, Ronda Noturna e Coração Paulista são raras peças da música popular.
São discos que retratam ainda a São Paulo da garoa, não a garoa branca e fresca, aquela do Adoniran e seus Demônios, já uma garoa cinzenta, misturada à poluição, um tanto aflitiva e asfixiante, o que coaduna muito bem com as incertezas de um jovem tímido, como Guilherme Arantes diz ter sido, e como eu sou até hoje, tirando o jovem, óbvio.
Os primeiros discos de Guilherme Arantes têm - ao menos para mim - uma atmosfera de uma aflição saudável, uma aflição que induz ao pensamento, ou que é causada por ele. Tanto faz.
Aí, a partir de 1983, processo que atingiu o ápice em 1985, começa a acontecer com Guilherme Arantes o que de melhor (financeiramente) e o que de pior (criativamente) pode suceder a um compositor : o sucesso em âmbito nacional. Com suas Cheia de Charme, Olhos Vermelhos e Gaivotas, Guilherme tornou-se praticamente uma unanimidade.
Todas as rádios o tocavam, todos queriam ouví-lo, todos queriam vê-lo, todos os programas de TV o mostravam. Quando isso acontece, quase que invariavelmente, o cara pensa, agora sim, agora eu sou um artista, agora eu sou grande, agora eu tenho um compromisso para com meu público. O cara começa a se levar a sério. Levar-se a sério é a ruína para quem desenvolve qualquer atividade criativa. A autocensura passa a imperar.
Lembro de Guilherme Arantes, ao fim dos trabalhos do disco Guilherme Arantes (1987), com a inspirada Um Dia, Um Adeus, dizer a um entrevistador que iria se recolher durante um tempo, precisava descansar da exaustiva exposição, dar uma poupada em sua figura, e também queria melhor elaborar seu próximo trabalho.
Lembro dele falando que, para aprimorar suas letras, iria começar a ler mais, leria os pensadores, e se referiu aos filósofos existencialistas como sua nova fonte de inspiração. Aqui são necessários dois parênteses :
Parênteses 1 : Ler os pensadores para quê? Ler os tais pensadores (nunca os li) pode até ser muito bom...para quen não sabe pensar. Para quem já tem uma certa intimidade com o processo, a leitura dos pensadores pode ser extremamente nociva. Com pretensões a um trabalho mais "sério e consistente", cai-se na armadilha de querer mimetizar as ideias desse ou daqueloutro pensador, corre-se o sério risco de perder a linha do pensamento individual, o que é fatal para qualquer autor. Ninguém tem que ficar pensando o que já foi pensado, ou, pelo menos, não da mesma maneira, não nos mesmos termos.
Parênteses 2 : Nunca entendi essa merda de pensadores "existencialistas". Todo mundo é existencialista. Salvo os suicidas. O resto é conversa pra boi dormir, é farsa, é embuste.
Fim dos parênteses.
O fato é que, a partir disso, Guilherme Arantes nunca mais entabulou um grande sucesso. E não porque suas letras tenham perdido a qualidade. Elas continuaram lá, bem feitinhas, bem elaboradas. Com um único pormenor : não era mais o Guilherme Arantes. E era do Guilherme Arantes que o público gostava. Não era do Proust etc.
O Guilherme Arantes se desconstruiu, parou de pensar como o Guilherme para tentar pensar como o Proust. Como se pensar como o Proust fosse melhor que pensar como o Guilherme. Talvez seja, talvez não, mas essa nem é a questão. A questão é que só Proust é Proust, só Proust pensa como Proust, só Rousseau como Rosseau, só Foucault como Foucault, só Descartes como Descartes...
E só o Guilherme como Guilherme. Guilherme abandonou Guilherme, e não se tornou Proust. Se fudeu.
Paralelo a isso, estou lendo a autobiografia do Lobão, 50 anos a Mil, em que ele, após o término de seu sexto disco, O Inferno É Fogo, cai na mesma esparrela. Ele conta que sentia a necessidade de um trabalho mais consistente e, para isso, decidiu ler quatro vezes mais que o de costume, que já não era pouco. Passou a ler muito o superestimado Nietzsche.
O mesmo se deu com Lobão. Sumiu o pensamento lobônico, ficou no lugar um arremedo de pensamento, uma série de citações até que bem costuradas na forma de letras de música. Mas sumiu o Lobão.
O que esses caras não entendem é que o pensamento de cada um é construído de forma muito peculiar e individual, por tudo o que o cara leu durante a vida, por tudo o que ele viveu, sofreu, sorriu, sacaneou, foi sacaneado.
 O pensamento se constrói como pano de fundo a tudo isso, como consequência. Não dá para parar e dizer : agora vou ler fulano para construir meu pensamento. Pensamento não é profissão, não se ensina, tampouco se direciona. Não há cursos técnicos para pensamento, nem autocads, não se compra em livrarias, não é sabão em pó nem sucrilhos.
Por mais paradoxal que possa parecer, o pensamento se constrói de forma inconsciente; não dá para racionalizar a construção do pensamento.
Lobão, também, nunca mais emplacou um grande sucesso. Suas letras ficaram mais profundas, mais elaboradas? Ouvi alguns álbuns recentes dele e acho até que ficaram. Mas sumiu o Lobão. E era o Lobão quem interessava a quem comprava os discos do Lobão, não era Nietzsch ou qualquer outro alemão de merda.
Por isso, repito : só deve ler os tais pensadores quem não sabe pensar.
E mais : fujam, corram com botas de sete léguas, com pó de pirlimpimpim, distanciem-se em warp 10, das pessoas que leem os pensadores, que os citam como fosse sua própria vida. São perigosíssimas. Falsas como o pensamento que tentam reproduzir.
Tudo isso que eu, confusamente, tentei falar, o Raul Seixas disse de forma brilhante e sucinta, que o sucinto é dom apenas dos gênios, na letra de sua canção Todo Mundo Explica : antes de ler o livro que o guru lhe deu, você tem escrever o seu.
E é isso mesmo. Ler os filósofos pensadores nada mais é que autoajuda para os não-pensantes.

Comentários

  1. Parabéns pelo texto. É tudo verdade. Gostaria apenas de acrescentar o disco de 1974, quando ele se lançou com o grupo Moto Perpétuo, um bom disco e que comprei meio que sem compromisso na loja de discos da rodoviária de Ribeirão. O Guilherme Arantes de 1985 é interessante, principalmente "Olhos Vermelhos", com a guitarra endiabrada de Sérgio Dias (mutantes) e a linda "Brincar de Viver" que ele havia feito para Bethânia. Em tempo: Guilherme Arantes de 1979 foi lançado agora em CD, com êxtase e a muito boa "biônica". Abs.

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  2. A Marreta do Azarão15 de julho de 2012 às 19:25

    Infelizmente, isso parece acontecer com quase todos, até mesmo conosco, as pessoas vão perdendo o vigor, vão se diluindo; a realidade, talvez, no fim das contas, seja sempre mais forte.
    Belo comentário o seu, você escreve em português correto, coisa rara na net.
    Obrigado.

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