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Santos E Heróis

O artista italiano Igor Scalisi Palminteri, sem ideias próprias e originais, resolvou fundir duas de suas paixões : santos e super-heróis.
E, claro, já está causando a maior celeuma entre os grupos ligados à igreja católica, que o acusam de desrespeito e blasfêmia.
A verdade é que tudo é mitologia, Osíris, Superman, Zeus, Homem Aranha, Odin, Freud, X-Men, Cristo, Batman, Buda, Capitão América, Platão, Virgem Maria etc.
A merda é que à mitologia vigente dá-se o nome de religião, como se tais personagens realmente existissem e lhes devessemos algum respeito; mitologia, já disse alguém, é o nome que damos à religião do outro.
A obra desse artista me lembrou um episódio esquecido de minha infância - ou o que hoje chamam de pré-adolescência. Eu contava com 12 ou 13 anos e estudava num colégio de padres nessa época; o porquê disto é estória que fica para outra vez.
Taí o Jesus América
Havia um padre lá que não ia muito com a minha cara (ainda bem, escapei de ser abusado). O tal clérigo era professor de religião do colégio e encerrava sua aula com uma oração, um pai-nosso ou uma ave-maria.
Até aí, tudo bem, são orações simples, de letras pobres e sem imaginação, decorei-as facilmente. Não que fosse um colégio exclusivo para católicos, ou que eu fosse obrigado a frequentar as aulas de religião, mas sempre preferi passar despercebido, não chamar a atenção. Então, eu imitava os catoliquinhos e, em minha pretensão juvenil, achei mesmo que estivesse ludibriando o padre.
Porém, fui desmascarado em meu mimetismo religioso, traído pela minha condição de canhoto. Ao fim da oração, a classe fazia o sinal da cruz, que também memorizei facilmente, só que eu o fazia com a mão esquerda, sem me dar conta disto, por pura questão de aptidão manual, não tinha me tocado que as ovelhinhas usavam a mão direita para se benzerem.
Um dia o padre me chamou e me passou uma descompostura; disse que eu não estava tentando enganar a ele, padre Miguel, mas sim enganar - zombar, até - o Cristo, a Virgem, o Espírito Santo, Deus. Eu já cagava para isso na época, mas, de qualquer forma, fiquei um pouco envergonhado, não pela blasfêmia, por ter sido pego em meu tão caprichado embuste.
Desse episódio nasceu a antipatia dele por mim, antipatia que ele fazia questão de demonstrar sempre que possível - será que eu sofri bullying cristão?
Até que um dia, ele me viu lendo um gibi do Capitão América durante o recreio. Ele pediu para dar uma olhada, folheou, olhou com cara de reprovação - havia estórias do Capitão, do Homem de Ferro e do Mestre do Kung Fu -, devolveu-me o gibi e perguntou se eu acreditava mesmo que existissem seres humanos com tais poderes, capazes de prodígios, de feitos impossíveis. Só que perguntou isso com um ar penalizado, de uma falsa condescendência (bem católica mesmo), como quem se dirige a um ser inferior, como quem queria dizer : perdoai-o Pai...
Eu respondi que sim, que acreditava, que acreditava em seres capazes de feitos miraculosos, mas que não era tão burro a ponto de rezar para eles.
Pensei que meus pais fossem ser chamados, assaltou-me mesmo o medo de uma expulsão, mas nada aconteceu, o ocorrido ficou entre mim e o padre. Acho que, intimamente, ele acabou concordando comigo.
Batman, sempre com o Robin no Colo
De qualquer forma, as obras do artista italiano ficaram até que bem legais, e se o Papa e a igreja o condenarem por blasfêmia, deverão também fazê-lo Stan Lee, Jack Kirby, Bob Kane, Joe Shuster, Jerry Siegel, alguns dos pais celestiais da moderna mitologia dos heróis.
Mitologia é mitologia. Se é blasfêmia contra uma, é blasfêmia contra a outra; eu, na condição de ateu, posso muito bem não gostar de ver os trajes do Capitão América a vestirem o idiota do Cristo, por exemplo. Ou respeitem todas as mitologias, ou não respeitem e esculhambem todas, indistintamente; particularmente, prefiro a segunda opção.
Em tempo : esse mesmo padre Miguel tentava instalar o terror em nossas cabeças. Na vã tentativa de reprimir a punheta, afirmava que deus ficava olhando toda vez que entrávamos no banheiro para praticar "atos impuros", fato que deu origem a um de meus primeiros textos publicados aqui no blog, Deus Gosta De Ver Meninos Tocar Punheta. Já deve estar morto hoje, esse padre, no inferno, tocando uma pro capeta, felizão da vida.
Fonte : Design Taxi 

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