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Na Loja De Brinquedos

As coisas seguem por si. A ilusão de que se têm controle dos atos, das decisões, da vida, enfim, é só mais um mecanismo criado pelo homem para tornar suportável sua existência nesse planetinha. Saber-se sob o total domínio do acaso (uma das mais perversas caras da Destino) - saber que nenhuma decisão tomada pelo seu superestimado intelcto humano fará diferença -, seria excruciante para a maioria das pessoas. Saber que não há livre-arbítrio e que todo e qualquer planejamento de vida é vão, jogaria a imensa maioria às fossas da loucura.
Para poucos, acredito ser o meu caso, descobrir o baldado de suas decisões, os lançam numa dicotomia de sentimentos. Por um lado, tira-lhes um fardo, o fardo de ficar pensando em como poderiam ser as coisas se tivessem agido diferente, tomado outras decisões : as coisas não poderiam ser diferentes, ou até sim, mas não por suas vontades. Suas decisões não são certas ou erradas, só são inúteis em conter a avalanche de merda quando ela vem. E ela sempre vem.
Por outro lado, já sinto um pouco disso, provoca-lhes um desconforto, o desconforto da indecisão, da dificuldade das pequenas escolhas.
Tenho um filho de sete meses e desde ontem, só retornando amanhã, foi com a mãe para a casa da avó, residente em outra cidade. E como tem sido foda ficar sem ele por aqui.
De saída do banco, agora à tarde, resolvi passar numa loja de brinquedos perto de casa e comprar para ele um negocinho qualquer, ele brinca mais com o papel da embalagem que com o conteúdo dela. Um desses bonequinhos dos desenhos animados da TV, algum super-herói, sei lá.
Rodei um bom tempo pela loja. Uns eram muito pequenos, outros tinham partes removíveis passíveis dele engolir, outros tinham arestas duras e pontudas, um outro tanto era de extremo mau-gosto, com conotações de terror e violência.
O que sei é que não consegui me decidir por nenhum brinquedinho para meu filho. Esse tipo de coisa sempre acontece comigo quando entro em uma loja para comprar roupas e calçados para mim, e não ligo, não me afeta.
Mas não conseguir decidir pelo brinquedinho do meu filho, arriou-me um pouco. Uma tristeza chata misturada à saudade dele se aninhou em meu colo, e nem a presença da Cleonice, minha gatinha bigoduda, afofando minhas pernas para dormir, consegue afastar.
Não conseguir comprar um simples brinquedinho para meu filho... estou cada vez mais prestando para nada, mesmo.

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